Por: Dr Ricardo Abelha; psicanalista e filósofo

Hoje venho publicar um conceito muito peculiar, que sintetiza uma experiência humana ao passo que, se relaciona a um fenômeno, que Freud discorreu e notificou; trata-se do Das Unheimliche ‘Estranho Familiar’. Ora, antes de mais nada, também gostaria de deixar explícito a formulação “ Καλλονείμεια” – construí-a considerando três estágios: Κάλλος (Kállos) –> Beleza suprema, ideal platônico, presente no pensamento de Santo Agostinho (Saudades de Deus). Νοέω (Noéō) –> Intuição intelectual, percepção súbita (o que se entende hoje, como fenomenologia). Λήμη (Lémē) –> Vestígio, cicatriz, resquício de algo que marcou a alma (em termos existenciais, considerando o pensamento de Kierkegaard, ‘desespero’, a experiência que aborda a angústia humana).

Essa ferida metafísica, causada pela beleza extrema, causa um efeito existencial e psíquico num duplo movimento. Onde posso vir a considera-la como o primeiro estágio do Das Unheimliche de Freud, tornando-o até mais compreensível. Quero ainda, apontar a complexidade discursiva que dispõe esse diálogo entre filosofia, arte e psicanálise.

A proposta de tal conceito e experiência, surge primeiro de duas viagens que fiz recentemente, a saber; estive em 2024, em Santo Antônio do Pinhal, com minha mulher. Foi uma viagem a dois, um tempo juntos, iríamos passar por algumas cidades, de carro, visitar um amigo, o Dr. Alessandro Loiola, e finalmente, pararmos em Campos do Jordão. Foram muitas horas de pista ouvindo música e conversando, quando, finalmente cheguei em Santo Antônio do Pinhal, uma pequena cidade montanhosa e vastamente florestada, repousamos em um aconchegante chalé, com direito a lenha, lareira e chocolate suíço. Eu estava lendo “Eros e Psiquê” naquela noite, de Apuleio, a edição lida, era uma publicação de Erich Neumann. O texto havia me feito pensar diversas questões – onde escrevi diversas sínteses entre psicanálise aplicada, filosofia da religião, mitologia e teologia, considerando que, o homem busca a Deus como Eros perseguia Psiquê, tragicamente inconsciente. Posto que o bem supremo percebido na beleza, na harmonia e nas formas, já discutido por Platão, implica a eternidade, como vai trabalhar Santo Agostinho. As saudades de Deus, como ele defende, é o desejo de ser como Ele, posto que somente Ele, poderia satisfazer a alma (na síntese, entrando então no lugar de Eros, quase como Michelangelo irá sugestionar, em suas cartas, como o Amor).

Esse estado profundamente contemplativo e humilde diante de Deus, resgata o pensamento de Santo Agostinho que disse “A ti, ó alma, nenhuma outra coisa satisfaz que não seja aquele que te criou”. É certo que Freud, essa unidade no Amor, seria nada mais, nada menos, que o Sentimento Oceânico, tema que retornaremos mais à frente. E a Psiquê, então, portanto, seria a alma do homem. O homem, nesse aspecto, precisa de Deus, para ver-se completo, em unidade. Não podendo concluir esse estado como se deseja e se anseia, mesmo da parte dos místicos, como São Francisco de Assis, Santa Gemma Galgani, Santa Teresa d’Avila, Santa Teresa de Jesus ou Santa Catarina de Sena, o homem, recaí no Desespero, como discutiu Kierkegaard. Pois a união com o Amor, implicaria uma transfiguração, como no Monte Tabor (Matheus 17:1-13).

Ora, o homem, precisa lidar com o sofrimento, transcende-lo uma vez após a outra, até que se chegue o dia. Há muitos que divinizam o sofrimento, portanto, como estado legítimo de professo a fé, ou a busca de sentido; como escreveu Adolphe Tanquerey e Viktor Frankl. Escrevi que, para o homem conhecer a Deus, ele deve retomar-se-a-si, ou seja conhecer-se-a-si mesmo, e tornar-se-si-mesm,o para retornar a Deus como origem em fim último. É no retornar, que haveria a conversão, reestabelecendo o ‘voltar-se’ a um horizonte deixado ou esquecido; por distração ou negligência. Ora, antes que me digam que religião e mente não tem nada a ver, lembremo-nos do que disse Pierre Aubenque em seu livro “Desconstruindo a metafísica? ” – pág 23 – “(…) Aí admite que a frase ‘Eu sou quem sou’ pode ter sido uma ‘resposta dilatória’, mas o sentido ontológico lhe parece presente, sem sombra de dúvida, em outra resposta de Deus a Moisés: ‘Falarás assim aos filhos de Israel: Ehie (= eu sou) me enviou a vós… Iahweh (ele é), o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, de Isaac e Jacó, me enviou a vós. É este o meu nome para sempre’. Como Iahweh significa em hebraico ‘ele é’, para Gilson isso é argumento suficiente para afirmar que a ontologia medieval do esse tem origem bíblica. Além disso, vale observar que ‘nenhum escritor judeu sentiu’ ‘convites à filosofia’ nesse texto do Êxodo. Tais convites só ‘foram percebidos e acolhidos por cristãos imbuídos da cultura grega…. Não há quem possa contestar esse fato historicamente sólido e bastante evidente’. Resta-nos resgatar o alcance histórico ou ‘historial’ desse acontecimento. Heidegger, aqui, nos ajuda mais do que o arrazoado cuidadoso de Gilson. A metafísica, pelo simples fato de não ser uma ciência que se possa propor uma verdade independente das condições de seu aparecimento, poderia, sim, ser um ‘acontecimento’, uma ‘decisão’, enquanto ligada a condições linguísticas particulares, a uma ou mais culturas, no caso a grega e a judeu-cristã, sem falar de seus desenvolvimentos ulteriores no mundo islâmico. A essa luz, é bem aceitável que se atribua a Moisés ou a Deus, pela boca de Moisés, antes que a Parmênides e aos pré-socráticos, ou ainda a todos eles, a paternidade da metafísica e a responsabilidade do acontecimento que ela foi e que ela representa para sempre na e para a história do mundo e da humanidade”.

E ainda, o que disse o próprio Freud em “Cartas entre Freud e Pfister [ 1909-1939 ]”

– “A psicanálise em si não é religiosa nem antirreligiosa, mas um instrumento apartidário do qual tanto o religioso como o laico podem servir-se, desde que aconteça tão somente a serviço dos sofredores. Estou admirado de que eu mesmo não tenha me lembrado de quão grande auxílio o método psicanalítico pode fornecer à cura de almas, porém isto deve ter acontecido porque um mau herege como eu está distante dessa esfera de ideias; Freud a Pfister em 09.02.1909”.

Bem nesses termos, me parece legítimo discutir Deus, o homem e a experiência de fé entre psicanálise aplicada, filosofia da religião e teologia, em relação à arte, investigando a dimensão da existência humana. Posto, que o objeto, tanto na teologia quanto na psicanálise seja o sofrimento e a possibilidade de transcende-lo; por isso eu disse retomar-se-a-si.
Pois é um processo de converter-se, voltar-se, mudar de rota, de horizonte.

Ou seja, elevar a perspectiva do pensamento e da busca, sando das questões mais corriqueiras e cotidianas, como fim último. Bem, dormi naquela noite, ouvindo os estalidos da madeira em brasa, e pela manhã, após tomar o café, partimos para conhecer o centro, a igreja e a culinária. Mais tarde, fomos para a estação ferroviária, que é um dos pontos turísticos, dado a imagem de uma santa, com cafeteria e parada para fotos. O que me marcou ali, foi a estação em si. Tive uma experiência que naquele momento, julguei muito peculiar, trata-se de presenciar o passado no presente, enquanto reconstrução imaginária.
Eu estava ali parado, olhando a estação desativada, e tive um deslumbre mental, evidentemente imaginário, de ver sobreposto ao presente morto, digo, o estado desolado e evadido de vida, em sua materialidade, as pessoas construindo os trilhos, conversando, rindo, as mulheres levando café aos maridos, o chefe de obras, as roupas e uma época que era outra. Esse clima fantasmagórico em mim, me sobreveio como um ter-sido-sendo do passado no presente.
Ou seja, não foi uma lembrança real, porque não estive lá, naquele momento, e não foi uma alucinação. Então o que foi? Foi a reconstrução no tempo condicional, àquele onde as coisas que poderiam ser, mas não foram, mantém-se perpetuamente no presente, estando no passado. No passando enquanto evento em si, no presente permanente, enquanto resquício material de vida humana e movimento. Essa fresta entre as duas coisas, foi o que eu “vi”. Isso me assombrou, porque a estação me pareceu profundamente trágica, como um cemitério. E eu quase senti falta de vidas às quais, não conheci. Eu precisava compreender à fundo o que aconteceu alí, e mantive-me a pensar e escrever, durante todo período de viagem e também, posterior a ele. Quando penso que, podem me acusar de propor uma tese com base em experiência pessoal, o que seria dissolvido na subjetividade, lembro do que disse Kierkegaard “só quem já se modificou pode mudar os outros”, um preceito profundamente socrático, presente no próprio pensamento freudiano, que desenvolvia sua teoria enquanto pensava e pensava enquanto escrevia; até mesmo quando ele fala sobre o Das Unheimliche, ele descreve sua experiência pessoal em viagem.

Novamente, algo que legitima, o que estou propondo, uma vez que, prestando atenção em pormenores, a esse estado de estranhamento e desconforto fenomenológico, me mostro ‘mudado’ para ‘mudar’. Bem, a estação ferroviária não era bela como o Davi de Michelangelo, para me forçar a experiência do desespero ou desamparo, da beleza-que-fere, mas, apesar disso, ainda assim, experimentei certo desespero e desamparo, não podendo estar onde aquelas pessoas estavam, ontologicamente. Estávamos separados, e isso é tudo. Estávamos em pontos diferentes, no contexto histórico, enquanto mentalmente, eu estava no mesmo ponto que eles, num tempo condicional. Fiquei perturbado, como disse.
Meses depois, estivemos em Holambra, outra cidade interessante e muitíssimo acolhedora, do interior de São Paulo. Eu já a conhecia, mas dessa vez, me ocorreu, novamente, a experiência da estação ferroviária, agora, ao entrar em uma casa, que é museu de um dos imigrantes fundadores. Tive uma sensação tão desconcertante que mentalmente, pedi ‘licença’ para entrar na casa, que me parecia de fato, limpa e arrumada, esperando por alguém (que não eu). Ao entrar, vi os móveis, as fotos, a poltrona do pai de família, o berço das crianças…. Tudo aquilo me soou novamente belo, simples, verdadeiro, mas profundamente pavoroso. Eu havia gostado muito de ir até lá, mas estava ouriçado para partir. O que havia acontecido? Não me era familiar a sensação em si, mas me era familiar o fenômeno do tempo condicional, aquele “poderia ter sido, mas não foi”.

Ora, novamente, estive perplexo em meus pensamentos, entre o presente material e o passado objetivo, imaginado. Ainda que o restante da viagem tenha sido muito bom, fiquei assombrado com aquilo. Seguia como ainda sigo, uma comunidade no facebook de casas abandonadas ao redor do mundo, aliás, comecei a seguir, após esse evento, e olhar para aquelas casas, era revisitar num nível um pouco mais ameno, essa sensação. Então, eu tive um sonho, onde, entrei em uma casa abandonada, em uma floresta, e quando fui passar pela porta pedi licença. Ao subir as escadas, e ver objetos infantis, como bonecas e um carrinho de bebê, fiquei horrorizado com uma sensação indescritível de estar alí. Acordei, e me coloquei a meditar, o que estava me ocorrendo afinal. No interim, eu havia analisado diversas músicas do cantor e compositor Guilherme de Sá, ex vocalista do Rosa de Saron, algo que o trouxe até mim, afirmando que de todas as interpretações recentes sobre sua música, as minhas em especial, foram as que ele mais havia apreciado. Não tivemos tempo de continuar a prosa, ele estava interessado no meu livro, e eu segui analisando a obra de outros artistas aos quais admiro e aprecio profundamente. Então, falei com a cantora escocesa Rachel Sermanni, que mora no Reino Unido, sobre uma canção específica dela, chamada “Bones”. Fiz uma análise detalhada sobre essa música, e a publiquei na Revista Nibelungo, traduzindo em inglês para que ela pudesse saber o que eu disse sobre sua arte; e eis que ela me deu um retorno após um tempo, bastante acalorado, dizendo que eu a fiz ver sua música em uma perspectiva nova, que eu havia feito uma leitura brilhante, etc. Fiquei curioso, porque eu não estava interessado em bajulá-los, nem em oferecer a eles, elogios vazios. Eu estava oferecendo análises objetivas, da estrutura interna de suas obras, apontando para uma dimensão não sintomática, nem patológica, mas existencial. Então, tive um encontro com o trabalho do pintor clássico Paulo Frade, que por acaso, é um bom e gentil amigo. Eu havia feito a ele, um convite para fazermos um encontro juntos, sobre a interseção entre arte e psicanálise, já que a arte, é parte metodológica da psicanálise desde suas origens com Freud. E ao aceitar, despertou-me profundo interesse em sua obra. Foi aí que, a experiência da estação ferroviária e da casa-museu de Holambra, de alguma forma, retornou, mas em potência máxima. Porque ao observar suas belíssimas pinturas, dignas do mestre sacro ao qual ele faz jus, me peguei arrebatado pela “Espera de Abraão”. Questões objetivas me chamaram a atenção nessa obra; em primeiro lugar, o estilo fortemente Rembrandt e o altíssimo nível de realismo com pinceladas que geram tridimensões plásticas.

Relevos harmônicos que quase dão a impressão do retratado estar saindo da tela. Segundo, a ausência de Isaac. Considerando a própria obra de Rembrandt, “O sacrifício de Isaac”, trouxe uma cena mais ampla, colorida e pessoal, que o de Caravaggio, que como de costume, apresenta uma cena trágica, e absurdamente realista. Bem, a ausência de Isaac, me pareceu proposital, posto que a ausência de cenário nas tonalidades de ouro queimado e marrom, exibindo o claro-escuro barroco, pedem um foco especial na figura em primeiro plano. Os olhos de Abraão, são a peça chave. Estive tão arrebatado na observação dessa obra, que, quando me dei conta, notei que meus olhos, estavam marejados involuntariamente. Poderia ser a manifestação da Síndrome de Stendhal, de fato.
Minhas mãos suavam, meus braços trepidavam e minha vista estava zonza. Mas mais do que os efeitos físicos, era a presença asfixiada da Graça. Havia naquela obra uma verdade visceral que me desestabilizava profundamente, e eu não sabia o que era. Seria a carga moral da divinização do sofrimento? Seria a presença retumbante do auto sacrifício pela fé? Seria ainda, uma tensão subjacente de Abraão entre fé e desespero, ou todas elas juntas? Passei a tarde pensando e analisando. Me via como um cão farejador, que, como Collingwood disse, para de fato experimentar ou consumir uma obra de arte, seria preciso, reconstruir por esforço mental toda experiência emocional do artista, que, o haveria levado a materializar em termos materiais, a obra em si; deslocando-se da mera técnica e artificie, e da demonstração emocional abstrata, a expressão emocional, por via discursiva e elaborada. Ou seja, o que o artista possui ao finalizar, é a mesma coisa que o observador, contudo, ambos têm uma interpretação narrativa, que podem se cruzar em quase absoluto estado de ser, mas haverá peculiaridades, geradas pela experiência estética, em particular, diferenciando então, as narrativas, para mais ou para menos, no aspecto intencional, que foi dissolvido pela tangibilidade da expressão em si, que escapa aos meios materiais da capacidade de dar forma ao que se tem em mente. Abrindo caminho para dimensões existenciais e inconscientes, agora externalizadas ainda que a contragosto.

Bem o fato, é que, não saia da minha mente, a análise de Kierkegaard sobre Abraão e Isaac, que é um texto fundamental de seu escopo filosófico, e que em contrapartida, oculta, sua relação amorosa interrompida. Algo que lhe custou suportar até os últimos dias.
Como ele poderia estar falando de coisas tão diferentes na mesma coisa? É o mesmo que me pergunto quando observo a Pietà de Michelangelo. Obra absoluta, onde a criatura segura nos braços, o filho, que ao mesmo tempo é Pai; o Pai que se fez Filho para salvar da condenação eterna, toda humanidade, tendo como via de acesso a corporeidade, a mulher que, milagrosamente, lhe deu à luz como mãe. Portanto a mãe de Deus, como Filho de Deus. Um verdadeiro ícone. A presença espiritual daquilo que não se pode conceber – ou seja, Michelangelo, esculpiu o invisível. No entanto, como Kierkegaard, ao ler os poemas de Michelangelo, tenho para mim, que a julgar pelas formas do rosto e a estrutura corporal, o busto, os ombros, enfim o porte de Maria, que é bastante robusto, diferente do esperado no ideal, uma mulher pequena, de meia idade, frágil, teria uma fonte de inspiração:
Vitoria Colonna, a Marquesa de Pescara. Ele enfatiza um amor esmagador, secreto e dilacerante. Ainda que em termos documentais, não há nada que prove a minha tese, posto que sua relação com ela, de amizade, venha a ser, posterior, nada impediria Michelangelo de estar enamorado secretamente, inclusive externalizando isso em remetente a Cavalieri, dando a impressão de suposta homossexualidade subjacente, uma interpretação estranha, para um tempo como o Renascimento, que estava mergulhado no neoplatonismo. O Cristo, com o braço estendido semimorto, a considerar suas veias à mostra, portanto, ainda algum sinal de pulsação quase como prenúncio de sua ressurreição triunfante, representaria em retrospecto, o próprio Michelangelo, a considerar o conteúdo dos poemas, sobre o amor dilacerante [ e secreto ]. O que faria sentido, se ver lançado nos braços da amada. Lembremo-nos que, Tristão e Isolda, era o referencial ulterior a um Romeu e Julieta, ou ainda, um Petrarca e uma Laura, ou ainda, a própria tragédia de Dante e Beatrice ou ainda, um Abelardo e Heloisa, todos compondo um amor cortês [ idealizado ].

Ora, como compreender a beleza dilacerante da obra de Frade ou de Michelangelo, que não pela estrutura conceitual da Kalloneímeia? Eu disse que iria discutir sobre o Sentimento Oceânico de Freud, pois bem, essa experiência por desejo de unidade, tende a ser, profundamente agradável e transcendental. O que Freud afirmou ser, a experiência recalcada da relação bebê-e-mãe no útero. Ou seja, a fusão entre sujeitos num só estado, uma transcendência a partir do outro, pelo outro, no outro [ para dentro do outro ].

Não foi isso que a Santa Gemma Galgani experimentou, manifestando as chagas do Crucificado na própria carne. Ou ainda, o que o Profeta Isaías experimentou, tendo os lábios tocados por brasa viva, nas mãos do Serafim (Isaías 6). Considerando ainda outro caso, a experiência da Santa Teresa d’Avila retratada no Êxtase, da escultura de Bernini.
Aqui, o êxtase é fronteiriço da angústia e do desespero; a beleza, do absoluto desamparo.
O movimento erótico entre o humano e o divino, de fato, parece trazer a unidade do Sentimento Oceânico, mas ela não é permanente. E há a presença de uma intensa dor e desconforto em paralelo com o êxtase. Nesse sentido, a unidade é breve em estado de penetração ou ferida. E ela tende a reverberar em perplexidade dado a impossibilidade de repetição, da cena, estímulo e imagem, ou seja, um trauma recorrente da beleza suprema. Uma beleza que ao invés de apaziguar, causa desconforto, deslocamento do “ser no mundo”. Um parâmetro impossível de se ser repetido ou novamente alcançado, algo que de tão impressionante, como um relâmpago, causa ressentimento, frustração, interrupção. Bem, é aqui, que essa fissura gerada pela Kalloneímeia, se abre a experiência freudiana do Das Unheimliche. Seja porque, de alguma forma, retorna o estranhamento familiar de vir-a-existir, o que Otto Rank chamou de trauma do nascimento, seja porquê, repercute-se algo definitivamente oculto, mas familiar, nas profundezas psíquicas, que, desarma e transforma, de forma relacional, ambos os sujeitos, que tem, em abruptamente, suas existências e subjetividades, lançadas frontalmente uma sobre a outra. Nessas vias, a angústia causada pela Kalloneímeia é completamente diferente do Absurdo camusiano, uma vez, que não há a repetição encarnada em Sísifo. É quase como canta Marcus Menna em Sem Radar:

– “Você me entorpeceu, e desapareceu, vou ficando sem ar”…

Fica uma ferida ressoando o indivíduo numa figuração mental de tempo condicional.
Uma perplexidade tamanha, que o recorda alguma ameaça ou descompasso, inexplicável. Alguns poderiam dizer, que tudo isso se trata, como importou Jung, de Rudolf Otto, o Numinoso (mysterium tremendum et fascinans), um assombro fascinante diante do sagrado; que retira o eu diante da presença desse Eu-maior. Diferente do Sentimento Oceânico, que causa uma dissolução do eu na unidade com deus, de Freud, há um caráter de transfiguração na Kalloneímeia. Por exemplo, recentemente, estive em contato com a sublime composição “Llibre Vermell de Monstserrat. Mariam Matrem Virginem” de Jordi Savall. É inegável que, após terminar a audição, permanece uma ferida causada pelo belo.
Uma perplexidade aberrante existencial, causada pela beleza extrema, que impele um deslocamento.

A composição é tão bela, que causa desespero. Em contrapasso ela faz emergir algo desconhecido, algo esmagadoramente familiar, mas indescritível. Irei citar mais três músicas que emergem o absoluto, da Kalloneímeia, nesse caso, duas dessas três, me provocaram lágrimas involuntárias em momentos diferentes, de um momento introspectivo de audição. Elas são: 7 Lieder, Op. 104: No. 6, Die letzten Blumen tsarben; Robert Schumann, Sibylla Rubens e Uta Hielscher; Dichterliebe, Op. 48: X. Hör’ ich das Liedchen Klingen; Robert Schumann, Fritz Wunderlich, Hubert Giensen e 12 Gedichte, Op. 35: No. 10, Stille Tranen; Robert Schumann, Hans-Jörg, Uta Hielscher. A experiência aqui, é ativa, não passiva. Me surpreende, que, levei muito tempo para elaborar esse conceito, e o precisei fazer, para inclusive, explicitar meu assombro.

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