Dr. Ricardo Abelha; filósofo e psicanalista
“É preciso deixar tudo, para ganhar Tudo! ” – Santo Afonso de Ligório

Estou convencido, de que pintar, sobretudo, é tentar vencer a morte.
Mas não vulgarmente a morte enquanto estado final do destino funcional humano; ou seja, a máquina que deixa de existir enquanto máquina. Que oferece seu último suspiro ao mundo, como que por um sinal metafísico e carnal, fecha sua biografia com consciência de fazê-lo.

Me parece, que, a pintura tenta vencer outra coisa. Não é o fim da vida funcional. Mas, a ausência de sentido, em que essa vida funcional existiu, privando-se enquanto vida de possuir um sentido. A imortalidade, presente na captura do olhar, do pintor, só consegue ser verdadeira a ponto de, preservar o ser do retratado, para além da vida em seu estado bruto, se, e apenas se, houver dentro dele, para transfigurar o olhar, algo maior que si. Algo que já tenha vencido a morte, em seu estado funcional, ainda em plena vida.
Ora, o pintor, não deve ter apenas a consciência da imortalidade, porque pouco ele poderá fazer com ela, que se aterrorizar com o fim, lutando contra as forças da decadência humana ou contra a decadência dos próprios sentidos, vencidos pela doença e velhice, como Monet. Ele deve ter, vivência de imortalidade na consciência que concebe existência para além do Ego. Nesse sentido, se tudo o que temos é o Ego, até percebermos o tamanho de sua importância diante da possibilidade do fim – estamos falando de uma transcendência sem transcender. Quem nos transcende, é Deus, e não a nós mesmos. Por que, qualquer um que pensa fazê-lo, imagina tê-lo concebido; como foi com Sartre ou Nietzsche. A criação poética, permite-nos, presentearmos as têmporas com asas, tal qual um Hypnos ou Mercúrio. A imaginação dotada de possibilidade, percorre o mundo onírico com vasta velocidade; no entanto, sem concretude de consequências reais. Apenas simbólicas. Sem a pintura, não restaria nada do ser do homem, quando ele deixasse a Terra. É neste ataúde plástico, que a alma, agora manifesta de modo sensível, permanece resistindo ao tempo tanto quanto Hades e Poseidon nas entranhas de Cronos.

O pintor vence o tempo, mas nunca o derrota. A cada tela, ele duplica o Eu do outro, e o dele próprio no autorretrato. Ele preserva o ser, pelo olhar. Mas não se salva.
Ela institui a alma pelo fio da consciência técnica e pela extensão do vigor dos seus dedos. Ele olha primeiro e pincela depois. Sem ser capaz de se projetar na alma, ele não vence a morte. Para vencer a morte, é preciso já ter morrido (e não estar morto); mas vivo, diante de uma verdade que o ultrapassa. Essa verdade em primeiro lugar é o legado humano que ele produz para si, para o outro e para a cultura diante da civilização inteira. Em segundo lugar, o destino. No fim ele não sabe mesmo para onde vai (embora preserve suas preferências metafísicas), ele se agarra ao que sabe ser certo, mas o fim último permanece um mistério inconfessado por quem detém as chaves do castelo.
Em terceiro lugar, a eternidade. Esta divide-se em duas, a simbólica através da linguagem e mitos – a biografia que deixamos para os outros como herança do que fomos – e finalmente, a vida que há em Cristo. Se essa vida, vivia em nós, com o apego ao que é ordinário e comum ao homem, houvesse sido mortificado, então, o eu do indivíduo decerto seria o Verbo, e o Verbo, seria Deus; e sendo Deus, o ser é quem se impunha sob as assas da realidade. Deste modo, os olhos veem mais do que os sentidos; mira-se o Um. É essa luz, essa totalidade que, como para o filósofo, faz-se corpo, da verdade, ao qual, os pinceis ou os discursos, irão perseguir, cada um em seus respectivos cenários, tornando a mulher que se levanta do poço, sua Musa inspiradora, até se ter, por revelação inexorável, que, o Verbo, o Ser, é o mesmo ente que se dispôs a Pilatos. Perplexos ficamos, por perceber, que a verdade é uma Pessoa; a Pessoa de Cristo. Nesses termos, o pintor, mira no outro, o Cristo que o mirou nele.
Ele busca a verdade no mundo, que o corresponde. Pintar, é vencer a morte.

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